Nasch - Sorriso


     "E lá estava aquela menininha, tentando tirar a dor como se fosse uma touca da cabeça e não conseguindo, estava sofrendo. Foi apenas um tombo, ouvi alguém falar atrás de mim enquanto eu socorria a criança e me davam um sermão sobre cuidados.
Eu não estava ouvindo, alguma parte mais submissa talvez, mas eu não, não naquele momento enquanto levantava a pequena, lhe dava um abraço, que foi retribuído com mais choro e pedido de colo. Minuto passado e ela havia se acalmado e a voz da diretora ainda ribombava ordens de atenção. Eu tentava esconder algo, tentava esconder a tanto tempo numa máscara de bom mocismo, de obediência e parcimônia que não percebi o quão forte aquele sentimento era até minutos atrás..."

Eva

     Eva estava almoçando no refeitório, não havia muito o que se fazer quando você tem 4 anos num refeitório sozinha. Havia se atrasado por ter brigado com um garotinho dois anos mais novo que havia pego sua coelhinha de pelúcia e agora estava ali, comendo alguma coisa com alguma coisa, como definira a comida da escolinha para mamãe. 
Quase acabando e o corpo pendeu para trás, como se puxado, mas não havia ninguém perto, além do tio da limpeza mas ele estava longe. Tudo foi claro e limpo: ela estava caindo, o homem que limpava o chão naquele momento largou a vassoura, deu alguns passos e parou, olhos bem abertos absorvendo tudo e tudo foi ficando torto na visão de Eva até a cabeça reverberar um baque e começar a doer e doer e doer...

Nasch

     Trabalho monótono.
     A manhã inteira havia feito toda a rotina: limpa campinho, limpa calçada, limpa salão, limpa mesa, limpa salas e agora estava ali limpando o chão do refeitório. Uma menina estava ainda comendo, havia brigado com outro pequeno, castigos pra outros, nunca para os culpados.
     A vassoura se arrastava chep chep chep, juntando pratos de restos que estavam caídos no chão, desperdício que nenhum pai contabiliza, que nenhum governo contabiliza mas que ele contabilizava inutilmente enquanto varria o chão branco.Branco. Outra inutilidade estética.
     Entre uma ação e outra o olhar mudou para a menina.
     Ela ia cair.
     Largou a vassoura, que dançou tentando resistir a gravidade dos fatos mas caiu impotente, Nasch deu só mais dois passos e parou...
     Ela ia cair. E isso era bom.
     Cada segundo depois daquele foi sendo registrado na mente dele: o corpo indo pra trás, o olhar de incompreensão da menina do porque estar caindo e toda a trajetória até o impacto da cabeça contra o inútil piso branco. Nasch viu tudo isso em detalhes, como se fosse algo sendo mostrado, exclusivamente para ele, e ele estava gostando.
     Ela estava caindo e isso é maravilhoso, assustador e interessantíssimo.
     Ela CAIU e nada foi feito.
     O torpor em que estava embebido evaporou com os gritos de ordem da chefe, outra figura estética inútil em sua opinião, quando finalmente correu até a menina e a amparou.
Por que?, perguntou-se ao perceber o leve sorriso desenhado em seu rosto.


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