Nasch - Esquecimento

"Aquele sempre era o primeiro sintoma: a diminuição de palavras numa conversa, depois o afastamento gradual da pessoa, pouco a pouco se distanciando, falando menos, pensando menos, se preocupando menos, sendo de fato menos e diminuindo-se cada vez mais no intuito de que a outro não mais perceba sua presença e a esqueça. Sempre foi assim e continuaria a ser agora e depois e depois e talvez depois de depois. Até o vazio preencher tudo."

Nasch

Estava confuso. Aquela conversa havia sido de fato perturbadora, talvez pela falta de reação dele, ou pelas palavras que teimaram em não sair enquanto olhavam aquela garota de olhar firme, que o compreendia e aceitava e que ele rejeitou. A noite já estava caminhando a passos largos e o frio abraçava Nasch enquanto saia a pé do shopping, tinha naquele evento climático um consolo, em cada brisa mais gelada e cada sopro atípico uma voz tentando convencê-lo que havia feito a coisa certa, de que havia sido honesto com seus sentimentos  e com a garota. No meio da multidão e sozinha. Mas algo no fundo, comedido e paciente lhe falava, no intimo, no cerne de toda a questão: Você está se arrependendo... e isso é um erro.

Cora

Ellie e Cora caminhavam pelos corredores abarrotados do shopping center, conversando amenidades dentre o vozerio naquele feriado de compras. As duas compartilhavam um pacote de bolacha recheada.Compartilhavam indiretamente olhares que já contavam tudo, inconscientemente tecendo as tramas daquele cenário em cada gesto, entonação e reação. Conversa fluindo como um rio, de final definido e inevitável. Nesse ponto porém, ninguém soube contar o que se passou.

Elie

Cada palavra dita pela amiga de muito tempo ecoava em sua mente, na tentativa de absorver e entender cada silaba, cada entonação diferente,cada nuance e fato novo que aparecia a ela enquanto conversava com Cora. O olhar calmo e plácido da amiga colocava alguns obstáculos na interpretação.Mas havia uma necessidade de estar ao lado dela, de compreendê-la de modo tão claro e simples que nada, nem mesmo a personalidade mais forte da amiga a impediria de confortá-la, pois sentia que era isso que deveria fazer: envolvê-la em carinho e compreensão paciente.

Nasch

Chegar em casa nunca havia sido tão reconfortante.
O frio deixado do lado de fora, o celular sendo jogado na cama, a televisão sendo ligada num programa aleatório e sem importância no momento.
Roupa tirada, chuveiro ligando e a água caindo. Caindo, caindo... Dormindo.
O vizinho começa a gritar algo incompreensível, parece desesperado e reparando bem isso começa a deixa-lo irritado.
Volta nu até a sala, decidido a desligar a televisão e desmaiar na cama esquecendo o dia inteiro e recomeçando do zero.
A televisão passa um cenário de destruição e desolação. Algo horrivel havia acontecido, uma explosão de algo ou de algum lugar. Flashs televisivos informavam a toda hora, sobre um acidente, sobre a perda de entes queridos e pessoas próximas, moldurados pelos números crescentes de feridos, desaparecidos e mortos.
Algo tinha acontecido, e aos poucos tudo ia se encaixando no lugar, peça por peça, entre sirenes dos bombeiros e vozes jornalisticas desenhando toda a destruição.
Não havia mais nada. Nem sorrisos, pedidos aceitos ou não, rejeições, obrigações, deveres, prazeres, amores... mais nada além de escombros em combustão, desabando enfraquecido pelas chamas. Não havia sequer esquecimento daquele ponto em diante da vida de Nasch, não havia mais shopping.

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