quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Amarre Seus Sapatos... (ou dois centavos sobre Jojo Rabbit)

(TEM SPOILERS, se quiser continuar, será por sua própria conta e risco, no mais: seja bem vindo!)


Jojo Rabbit é um filme de 2019 (outubro ou novembro do ano passado), que conta um trecho da vida de Johannes Betzler, um garoto de 10 anos, vivendo sua vida na Alemanha no final da segunda guerra mundial. Ele tem pouquissimos amigos (dois por contagem oficial e em ordem crescente: Yorki, um garoto com a mesma idade de Jojo e Adolf Hitler (interpretado pelo diretor do filme Taika Waititi), e que no momento que o conhecemos, está iniciando sua jornada pela Juventude Hitlerista.

Desde o inicio do filme Jojo tende a reafirmar sua posição no mundo que vive, suas ideias e ideais segundo sua visão de criança no meio daquilo tudo, seja a frente do espelho, ou seja pelo Hitler imaginário, que o aconselha, o anima e o relembra sobre o dever com o país. O filme não se contém ao mostrar a figura de Hitler como algo desvairado e totalmente desconectado com a realidade a volta dele mesmo e do próprio Jojo, cheio de trejeitos carregados e conselhos cada vez mais estapafúrdios, ou mesmo sendo colérico quando a duvida cresce dentro do garoto; que vai aos poucos, com a sequencia de acontecimentos, reconsiderando e se perguntando qual o real valor da ideologia nazista e das crenças a sua volta.

Uma galeria de personagens com as mais variadas maneiras de ver a situação do regime, é exposta a Jojo e a nós, desde os fanáticos, aos desesperançosos, os paranoicos aos fidelíssimos, mostrando de certa maneira o quão ignorante e cego é o texto e contexto nazista, isso em meio a boas piadas e sacadas que ilustram justamente isso, a desconexão com a realidade e a necessidade daquelas pessoas em confiar em toda aquela fantasia de superioridade e força naquele momento.


Um detalhe, que talvez não seja um detalhe, já que é explorado várias vezes durante o filme, é que Jojo não sabe amarrar seus sapatos, mais de uma vez esse elemento aparece, a mãe de Jojo (interpretada por Scarlett Johansson) sempre om um sorriso no rosto, amarra os sapatos dele fazendo algum comentário pertinente. Essa personagem vê o filho imerso na ideologia, e a sua maneira tenta sempre trazer um pouco de clareza e da sua visão de mundo sobre o conflito, sobre as dores e sobre como a luta não tem glória e como a vida deveria ser celebrada, não literalmente levada a ferro e fogo.

Toda a trama se desenvolve com esse menino que tenta se apegar às suas crenças, a falta da figura paterna (materializada no amigo imaginário) e a descoberta de uma jovem judia chamada Elsa (interpretada por Thomasin McKenzie) , que traz um peso na medida certa e mostra que os monstros que somos ensinados a temer, talvez não sejam os verdadeiros monstros. Há uma descoberta sobre amor, há a dor da perda e todo processo de um garoto entendendo e crescendo com o final da guerra e colocando coisas que realmente importam como prioridade.

Os sapatos desamarrados que permeiam todo o filme são em sua maioria de Jojo, e isso é uma interpretação minha a esse simbolo, que está envolto por toda fumaça criada pela crença de um garoto de 10 anos pela pátria e todo blá blá blá que o acompanha, a sua mãe sempre vem e amarra os sapatos dele, tentando pôr sua perspectiva sobre tudo tentando ligar as coisas dentro do garoto, lhe dando duvidas para que se questione e que sua visão mude.


Durante as descobertas sobre Elsa, seu envolvimento com ela e depois da morte da mãe (enforcada por traição), a invasão da cidade pelas tropas aliadas... Tudo isso deixa uma marca profunda e ele finalmente se liberta do pensamento e começa a ver os verdadeiros tons das pessoas a sua volta, desde seu amigo Yorki, que é alguém que se conforma segundo a situação vigente e vai levando sua vida, os adultos a volta dele, Elsa e ele mesmo. E aí, depois dele se olhar no espelho novamente e sabermos que se passaram seis meses desde o inicio do filme da mãos dadas a Elsa na porta de sua casa ele vem e amarra os sapatos da jovem e toma a frente abrindo a porta e mostrando a ela um novo mundo.

Amarrar os sapatos é um sinal fisico da liberdade de Jojo, que ele está desvencilhado da doutrina que o envolvia e que agora tem sua própria visão de mundo e que ele pode naquele momento conduzir Elsa para o exterior de sua casa, se machucar, compreender seus erros e finalmente poder celebrar a vida dançando no fim.

Quantas vezes nós mesmos não deixamos nossos sapatos desamarrados, correndo pela vida e tropeçando em nossas crenças sem nos reavaliarmos, dentro de nossas caixinhas egoístas, sejam sobre nossos gostos ou sobre nosso entorno e por nos deixarmos moldar por esse entorno tóxico e não sermos mais combativos contra coisas que cremos. Jojo Rabbit é um bom filme, que me levou a escrever esse texto depois de muito tempo sem escrever e depois de pensar e repensar sobre meus próprios cadarços. É uma mensagem bem humorada, sem desrespeitar o momento histórico que o filme retrata, mostrando que pode ser bom rever nossos conceitos, no micro e no macro da vida.

Tente amarrar seus sapatos... e viva com isso.

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